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6 motivos para amar a temporada de retorno de Twin Peaks

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Talvez você nunca tenha assistido Twin Peaks, ou talvez nem tenha ouvido falar sobre a série. Se esse for o seu caso, eu preciso te contar que, no início dos anos 90, dois caras chamados David Lynch e Mark Frost mudaram a maneira como os Estados Unidos enxergavam um seriado de tv. Com o assassinato da jovem Laura Palmer e a chegada do agente do FBI Dale Cooper à cidade fictícia de Twin Peaks, para investigar o crime, começava uma história que – definitivamente – não traria respostas prontas.

Uma das coisas mais incríveis no universo particular dessa série é a mistura equilibrada entre o mistério, drama e, por mais esquisito que pareça, comédia. Em uma mesma cena, você consegue rir e chorar, e um mesmo personagem pode te despertar ódio, empatia, medo, carinho ou pena; ou vários sentimentos ao mesmo tempo. Às vezes um personagem pode até virar seu crush, porque não?! TE AMO Dale Cooper, SAI DA TV E CASA COMIGO!

Entre 1990 e 1991, o que começou como mais uma série policial, tomou rumos sobrenaturais e até místicos, enquanto mantinha os fãs em um misto de curiosidade e incompreensão. Ao final da segunda temporada Twin Peaks já possuía simbologias próprias e, deixando muitas questões em aberto, virou objeto de pesquisas e teorias variadas, nunca devidamente esgotadas: o que já era um fenômeno se tornou uma lenda.

Em uma época onde a televisão por assinatura recém começava a se espalhar pelas casas dos EUA, a internet dava seus primeiros passos e todas as séries eram estritamente lineares, não era comum que um mesmo plot mesclasse a realidade quase palpável do cotidiano com elementos surreais e acontecimentos absurdos. Assim como não era nada comum que uma série tivesse uma sólida base de fãs, se tornasse assunto quase obrigatório nas ruas e ganhasse livros que expandissem seu universo. Pois Twin Peaks fez tudo isso com apenas duas temporadas e um filme prequel, meus amores.

Diante de todo esse frenesi em torno da história, dá para imaginar o nível da expectativa dos fãs para um possível retorno. E em 2017, a tão merecida terceira temporada (a.k.a “The Return”) foi exibida pelo canal norte-americano ShowTime, chegando no Brasil pela Netflix. Com a volta de grande parte do elenco original, outros nomes fortes do cinema participaram do projeto, como Naomi Watts, Amanda Seyfried, Ashley Judd, Jim Belushi e Tim Roth.

Pessoalmente, assisti o The Return e confirmei o quanto essa série é complexa e incrível, mas já deixo avisado para quem ainda não sabe desse “macete”: assista Twin Peaks pela experiência, e não espere finais previsíveis. E se você já assistiu as primeiras temporadas ou ficou curioso e planeja assistir, quero te contar algumas boas razões para dar uma chance à terceira temporada dessa série linda.

1 – A nostalgia

Por mais que o retorno da série tenha tramas próprias e não se preocupe quase nada em ser “fan service”, é impossível que um fã de “Twin Peaks raiz” não se emocione ao ouvir de novo a música de abertura, ao rever a delegacia da cidade ou o restaurante Double R, ao relembrar a cena incônica do “meanwhile” e etc. E vou ser bem sincera: eu chorei sei-lá-quantas vezes, só por ver os personagens mais velhos e por ter alguma noção de como foi suas vidas nesses 25 anos que separaram a 2ª da 3ª temporada.

A carga emocional da série é bem forte, e por mais que não seja um dramalhão mexicano, em algumas tramas paralelas ou mesmo no decorrer do plot da protagonista Laura Palmer, é bem difícil segurar as lágrimas. E, sim, vai rolar uma sensação de vazio existencial quando você encerrar o último episódio, mas até a bad vale a pena. Acredite.

2 – A(s) atuação(ões) de Kyle MacLachlan

A gente já se apaixonou pelo agente especial Dale Cooper nos anos 90, mas David Lynch sabe que o Kyle pode muito mais na atuação. Esse potencial de atuação vem, na terceira temporada de Twin Peaks, na forma de três personagens muito distintos: o próprio Dale, Mr. C e Dougie.

Não vou explicar quem é o quê, por motivos sérios de spoiler¸mas o ator ganhou um lugar de destaque entre os meus favoritos da vida após esses 18 episódios. MacLachlan consegue entregar sentimentos complexos sem precisar abrir a boca, passando a segurança de um agente do FBI e a incerteza de alguém que encara perigos desconhecidos, na forma como caminha ou curva as sobrancelhas; nos transmitindo até a presença de BOB, o já conhecido espírito do mal que ronda a cidade, em uma rápida mudança de expressão. O cara é incrível, simplesmente.

3 – O universo continua em expansão

Ao final da segunda temporada, muitas questões ficaram sem resposta, e qualquer fã da série pode ter pensado que uma terceira temporada já teria o trabalho suficiente de fechar as pontas soltas. Daí chega a temporada The Return e nos prova que ainda tem muitas coisas que não sabemos sobre as entidades e a população de Twin Peaks. Eita!

A expansão desse universo pode até parecer cansativa no início, quando não conseguimos conectar o quê com quem. Mas tenha paciência, aproveite a jornada, e compreenda aos poucos tudo que conecta a pequena cidade norte-americana a lugares que não pertencem a essa dimensão. Nesse retorno, toda a lenda construída em torno da série é elevada à potência máxima, com explicações sobre o Black Lodge e a importância de personagens como o Major Briggs e Phillip Jeffries. Com vários outros cenários e plots secundários alternando as cenas, a série aumenta (e muito!) a quantidade de personagens em cada episódio. E mesmo que alguns desses pareçam sem pé nem cabeça em relação à série original, vale prestar atenção em cada detalhe.

4 – A arte de montar um quebra-cabeça

Como já mencionei acima, cada cena é importante em Twin Peaks, e na terceira temporada essa noção é levada muito a sério. David Lynch brinca com a necessidade que os espectadores têm de descobrir absolutamente tudo em uma história, e para isso faz o oposto: não revela muito e não revela rápido. Cada informação nova é valorizada, e os agentes do FBI Gordon Cole, Tammy Preston e Albert Rosenfield se tornam – em certo ponto – uma representação dos espectadores que vasculham cada fala e cada olhar em busca de respostas.

Nesse sentido, fica uma dica que deu muito certo para a pessoa que vos escreve: conforme assistir cada episódio de The Return, vale ler reviews com spoilers e opiniões sobre ele. Assim você percebe como outros fãs decifraram e compreenderam de forma diferente o que você mesm@ já tinha (ou não) se dado conta. Eu fiz isso e foi crucial para não me perder no meio do caminho.

5 – Em cada episódio, uma música nova pra conhecer

As primeiras temporadas de Twin Peaks nos apresentaram a uma cantora incrível: Julee Cruise foi a intérprete de “Falling”, a icônica música de abertura da série, e aparecia sempre cantando no bar fictício Roadhouse, tendo marcado várias cenas importantes com suas canções melancólicas e delicadas.

Em The Return, o Roadhouse agora não conta apenas com uma cantora, disponibilizando seu espaço à vários grupos e cantores solo, em maioria de estilos indie e folk. Cada episódio da temporada nova é encerrado com alguém diferente cantando, desde artistas independentes até os mais conhecidos, como Nine Inch Nails e Eddie Vedder. Além de ser uma boa oportunidade para descobrir músicas novas, o interessante é perceber como as músicas realmente combinam com o estilo da série, formando uma boa unidade com a trama. Tal como era nos bons tempos da rainha Julee Cruise.

6 – Largue o celular, beba o seu café e perca a noção do tempo

Na era do smartphone e dos 140 caracteres, a gente se acostuma a assistir seriados com episódios de 40 minutos, cenas rápidas e cheias de ação, explicações coerentes ao final da temporada e ganchos que fisguem o espectador ao final de cada episódio. A gente assiste as séries enquanto twitta, olha o feed do Facebook e responde as 10 mensagens do Whatsapp, não é mesmo?!

Mas eu sinto muito te dizer, amore: se você fizer tudo isso enquanto assiste a terceira temporada de Twin Peaks, você não vai entender nem 1% da história.

David Lynch tem uma característica de direção que é muito difícil de perceber em filmes ou séries: ele se importa com o desenvolvimento da história, em sua realidade e surrealismo próprios, e não prepara a obra de uma forma clichê que agrade diretamente o espectador.

Dessa forma, vai ter tomadas longas de uma rua onde nada parece acontecer, vai ter personagens calados em cena por longos minutos, vai ter personagem apático com imagem em close e vai ter, também, finais de episódios sem nenhum “gancho” aparente. E sabe o que é mais louco? Isso tudo é, realmente, pra dar um choque de realidade no espectador; nessa correria que é a vida, e na rapidez com que esperamos uma resposta no Messenger, um episódio na Netflix ou um carro do Uber, o Lynch quer te forçar a sentar, esperar e assistir.

Nisso eu vi algo de poético que nem sei estava nos planos do diretor, mas encontrei aí uma força que nos leva de volta ao mundo da década de 90: onde tudo precisava esperar, tudo era mais calmo e nós, em consequência, éramos mais calmos e pacientes também. Ao nos depararmos com um personagem apático (que não vou revelar quem é), logo pensamos que ele é doente. Mas aí é que está: só porque ele não carrega a urgência que faz parte da contemporaneidade, não quer dizer que ele esteja doente. Ele pode apenas estar deslocado (e está, no contexto da série) da realidade pós 2010, tendo estado preso num período que já chamamos por antigamente.

O último conselho que eu tenho para dar aos futuros espectadores dessa temporada de retorno é o seguinte: se entregue à história. Sem outras telas por perto, sem notificações, sem pensar em mais nada. Como era nos anos 90. Se dê ao luxo de um damn fine cup of coffee nas mãos e dê o play no episódio. Apenas isso, e eu espero que você se apaixone pela complexidade e beleza de Twin Peaks.

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